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terça-feira, 15 de abril de 2008


Lula amarelou, diz Mino Carta

Para Mino Carta, o país tem inúmeras soluções e um único problema: uma elite medieval, diante da qual o presidente Lula amarelou. Aos 74 anos, depois de comandar publicações ousadas e criativas, ele ainda quer escrever um livro chamado “O Brasil”. Mino concedeu uma longa entrevista para a Revista do Brasil, que saiu ontem, editada por vários sindicados filiados à CUT. Abaixo, trechos da entrevista.

Revista Brasil: Há quem diga que se Lula não tivesse cumprido os compromissos assumidos na Carta aos Brasileiros teria caído.

Mino Carta:
Eu duvido. Quem dá o golpe se o povo elegeu e reelegeu esse cara da forma como o elegeu e, sobretudo, como o reelegeu? A mídia compactamente contra ele, todo dia soltando informações sobre corrupção, envolvimentos terríveis com o que há de pior etc. etc., e assim mesmo ele foi reeleito. Quer dizer, a estratégia da minoria branca, que normalmente dá certo, desta vez falhou. Não acho que havia condições para nenhum tipo de golpe. Os grandes estadistas têm coragem. Claro, se ele me ouvisse dizer essas coisas, diria: “Ah, o Mino é um iludido, um anárquico”. Conheço o Lula há 30 anos, sei o que ele pensa. Em inúmeras vezes percebi que ele me achava incômodo. Sou amigo dele e gosto muito dele, o acho um sujeito extremamente dotado, além de tudo tem um QI muito bom. Mas falta peito, falta coragem.

Não acha que agora, no segundo mandato, ele está participando mais da política e sendo um pouco mais claro nas questões ideológicas?

Acho que o segundo mandato está pior que o primeiro. Fiz uma longuíssima entrevista com ele – 13 páginas – em novembro de 2005 e ele me disse: “Você sabe, Mino, que eu nunca fui de esquerda...” É um erro grotesco dos países de hoje, contemporâneos, dizer que a esquerda e a direta não existem mais. Como, se num país onde 5% vivem entre razoavelmente e bem demais e 95% vivem mal ou tragicamente? Como é possível dizer “aqui não existe esquerda e direita”? Tem uma metáfora magnífica que é a do metrô paulistano: se São Paulo tivesse um metrô digno de uma grande capital, como Londres, Paris, você teria muito menos carros na rua. O metrô é um transporte fantástico. Não! Eles cuidaram de construir túneis. Agora tem a ponte Espraiada e uma prefeita do PT chamou aquilo de Conjunto Viário Roberto Marinho, um salteador que infelicitou o Brasil, uma vergonha mundial, “jornalista”... Este é o único país que eu conheço onde jornalista chama o patrão de colega e o patrão consegue com o sindicato uma carteirinha de jornalista. Isso é Idade Média. Uma vergonha! Aqui temos diretores de redação por direito divino.

E como o país caminha para 2010?

Mal. Acho que se o Lula não se convencer de que não consegue fazer seu candidato, que não tem chance, que ele não transfere seu prestígio pessoal – e o Aécio já está dizendo isso –, ele vai optar por essa solução (mostra capa da Carta Capital de 2/4/2008, com reportagem abordando a possibilidade de Aécio Neves sair para presidente com Ciro Gomes de vice). E essa dupla (Aécio e Ciro) vai fazer as mesmas coisas que estão sendo feitas agora. Não imagine mudanças.

Como você vê o PT nessa história?


Há no horizonte claramente esboçada uma crise do PSDB, mas há também uma crise do PT, que no fundo já está em andamento. Já houve uma primeira fratura e haverá inevitavelmente outra. Eu sei que o Luiz Dulci (ministro da Secretaria-Geral da Presidência e liderança do PT de MG) não concorda com essa aliança mineira (do PT e do PSDB em torno do candidato do PSB à Prefeitura de BH). O Lula está feliz da vida com essa pax mineira. Há dentro do PT quem perceba que o partido está sendo de alguma forma diminuído, está perdendo peso, prestígio e importância.

Mas você vê um futuro com o Lula rompido com o PT?

Não posso crer. Acho que os partidos brasileiros não existem, são clubes recreativos para a minoria branca. Mas eu cheguei a achar que o PT tinha algo diferente. Nunca fui ligado a partido, mas apoiei muito o PT no seu nascimento, dentro das minhas modestíssimas possibilidades, porque sempre entendi que um partido forte de esquerda no Brasil, com coragem e determinação, poderia ter um papel muito importante. Mas o PT, em última análise, no poder, mostrou-se igual aos outros. É claro, o Brasil está crescendo no momento, mas está crescendo em cima de commodities, vamos ser claros! Isso é um futuro maravilhoso? Eu diria que não.

O que o governo deveria fazer para mudar isso?

É uma questão mundial. O deus-mercado é o pior dos deuses que o homem já conseguiu inventar. É uma desgraça. As bolsas do mundo – aliás, o Brasil cogita criar a terceira maior – são cassinos. Privilegiou-se a produção de dinheiro, em lugar da produção de bens. E eu me pergunto: isso leva a quê? O Brasil está nessa.

Tem alguém no mundo que não esteja?

Não, acho que o mundo está submetido a essa idéia. E estamos vendo que o mundo piora a cada dia. Temos por exemplo a “arte moderna”, uma prova da imbecilidade do mundo

Leia a entrevista na íntegra aqui.

18 comentários:

Anônimo disse...

interessante. eu jurava que o mino carta era PATRÃO da carta capital.

Carlos Eduardo da Maia disse...

O Mino é inteligente, mas com uma personalidade flor de complicada e que pensa muito nos seus interesses. Ele gosta de forçar a barra e se balança na ambivalência de seu status quo de empresário da mídia vomitando frases de efeitos para seus leitores favoritos que consomem seus produtos, atacando a mídia que é sua concorrente. Mino se alimenta do mercado da publicidade, da mídia e ali consegue seu Ibope. É impossível levar a sério Mino Carta que deve estar achando o fim da picada o culto povo italiano ter eleito o Berlusconi.

Anônimo disse...

ele é Patrão mas não é do PIG

Fabrício disse...

Bingo! Parece que agora a consciência média do progressismo também vai caracterizando o lulismo como algo intimamente ligado ao establishment. O que expressa uma caracterização correta, aliás.
Vale colher disso, além da obviedade da traição fundamentalista que o PT protagonizou, a circunstância de que os petistas ainda intelectualmente honestos (a minoria) estão sumetidos a uma espécie de sequestro mental. Os demais, deitam e rolam no oportunismo.
De qualquer modo, a farsa está acabando. Sorte nossa...

Anônimo disse...

Lúcido o Mino. Critica o que tem que ser criticado, respeitando o político eleito pelo povo.
Lula continua devendo a cabeça do presidente do Bacen e uma política econômica que prepare o país para abarcar todo o povo. Fez mais que todos os anteriores pós-regime militar, mas poderia fazer uma verdadeira revolução. Talvez, falte vontade política.

armando

Anônimo disse...

Isto é que é confissão;

Maia:

"É impossível levar a sério Mino Carta que deve estar achando o fim da picada o culto povo italiano ter eleito o Berlusconi.."
Repetindo:
"É impossível levar a sério Mino Carta"
" culto povo italiano ter eleito o Berlusconi.."

Quem vibra coma eleição do Berlusconi, não pode nem ler o Mino Carta.

Claudio Dode

Carlos Eduardo da Maia disse...

Não vibrei com o Berlusconi, Cláudio. Com certeza não vibrei. Tenho grande simpatia pela "sinistra" social-democrata européia. A recente eleição italiana é mais uma demonstração que os povos conscientes, educados, com acesso a boa qualidade de vida podem votar na esquerda ou na direita. Não existe mais a história de que povo consciente e desalienado vota na esquerda.

Armando, Lula não vai tirar as pessoas do setor que está dando certo no governo dele: a política econômica, clone do regime FHC. Ele não faria essa imensa burrice.

Anônimo disse...

Maia, dando certo para quem? Para os banqueiros, principalmente.Essa é a questão.

armando

Carlos Eduardo da Maia disse...

Armando, os shoppings estão cheios, as vendas de automóveis também, os restaurantes super lotados, os hoteis atrolhados de people, os prédios sendo construídos em todos os bairros, o povo planta no interior, presta serviço na cidade, trabalha na fábrica e a classe C virou a classe dominante. Este é o Brasil que dá certo, cuja receita está sendo seguida e passada de governo em governo. Lula não vai fazer a santa bobagem de mudar esse cenário para outro completamente obscuro.

heliopaz disse...

Já escrevi que o Governo Lula não é socialista, nem comunista, nem anarquista, nem populista, nem neoliberal.

Este governo procura atualizar aquilo que foi o chamado "trabalhismo" de Getúlio Vargas. Porém, ao contrário daquele, as cifras são elevadas à vigésima potência e não há anti-comunismo nem simpatia ao nazismo.

O trabalhismo, ao meu ver, consiste em melhorar substancialmente a qualidade de vida dos pobres perto daquilo que eles vinham experimentando nas últimas décadas, porém ainda muito aquém de um mínimo digno para um início parelho pelas próprias pernas.

Consiste, ainda, em dar um puta arrego para as oligarquias internas e externas, tornando uma neoindustrialização sinônimo de desenvolvimento.

Todas as políticas do Governo Lula são praticamente inexistentes para a antiga classe média (que, em função da mídia corporativa, se transformou predominantemente em MIDIOTA ou MÉRDIA).

Por outro lado, a nova classe média (que, não demora muito, em função do conservadorismo e de também ser submissa à mídia corporativa e a seus patrocinadores, trasformar-se-á em mérdia e midiota também), por enquanto, ainda será eternamente grata a Lula, assim como meu pai foi a Getúlio.

A verdade é uma só: o Brasil da ditadura militar foi péssimo em termos de distribuição de renda, endividamento, liberdades individuais, democracia e repressão. No entanto, investiu mais em ciência e tecnologia nas universidades federais do que hoje, proporcionalmente.

O único governo em todos os tempos de quem se esperava políticas ambientais consistentes está-se mostrando justamente o pior de todos.

E é frouxo, sim, senhor. Em termos de defesa de deus próprios interesses, de suas próprias políticas e de estabelecer um justo e decisivo confronto com as elites com as quais é impossível ser aceito de bom grado (racismo, sexismo, classismo, bairrismo, status, etc.). está devendo um montão.

Todavia, por incrível que pareça, ainda assim é o governo MENOS PIOR da história deste país.

Sou de esquerda, agito minha bandeira do PT, visto camiseta e bandana na cabeça com a estrela, pins, adesivos...

...Mas isso é mais porque me nego a votar nulo, em branco ou na direita, seja ela verdadeira ou falsa.

O PT ainda não é por completo. Mas está caminhando a passos largos para ser um partido igual aos outros.

Por essas e outras, não me filio.

[]'s,
Hélio

Fabrício disse...

Esse Maia, hein... Não parece retratar exatamente a idéia que o lulismo faz do Brasil?
Do que ele diz, o PT só não admite que a receita vai passando de governo em governo (Itamar, Collor, FHC, Lula). Mas é!

Anônimo disse...

Então Maia, aí reside a diferença. O povo melhorou, a classe C ampliou, há menos desemprego, etc. Como disse o Hélio é o governo "menos pior", mas, e sempre tem um mas, quem ganha e muito, quem dá as cartas, quem articula a forma de governar, inclusive com dois ministros banqueiros, são os próprios. Uma coisa é o povo estar melhor, outra coisa é o ganho vergonhoso dos rentistas e banqueiros. É disso que estamos falando. É aí que a maioria dos petistas e simpatizantes conscientes não se conformam. Não se lutou desesperadamente para que os banqueiros, finacistas e renstistas imperassem soberanamente. Mutatis, mutandis, estamos como no governo Médici: tinha empregos com altas taxas de crescimento, mas os especuladores com os banqueiros reinavam soberanamente e, claro, com repressão elevada a enésima categoria.

armando

Daniel disse...

PT x Trabalhismo?

Parece que o sr. Helio, do alto de seu palanque, se preceptou ao fazer comparações entre o trabalhismo varguista com a politicagem petista e o ex-PT...
Acusar o trabalhismo de dar um "puta arrego as oligarquias nacionais e internacionais tornando uma neoindustrialização sinônimo de desenvolvimento", então, é um grander absurdo, que só pode proferir quem desconhece a história, ou está comprometido com interesses que querem mudar os acontecimentos passados para justificar os atos do presente.
Seria mais correto, e menos ofensivo "comparar" a política LuLLista com o "trababalhismo" do atual PTB, de Roberto Jefferson, herdeiro de Ivete Vargas, ou até mesmo com o que restou do PDT, sombra do partido de Brizola.

Comparar-se à Vargas é um sonho de Lula, que esfregou suas mãos no petróleo para anunciar auto-suficiência da produção petróleo, imitando o gesto de Getúlio nos anos 50.
Gesto que estava vinculado ao nacionalismo, bem diferente do que há agora.

Ainda assim, apesar dos lucros impressionantes da Petrobrás, pagamos um preço absurdo pelo preço da gasolina, protegendo os interesses estrangeiros no país.
Os interesses internacionais, mais do que nunca, somados a uma elte oligárquica, foram os responsáveis pelo suicídio de Vargas e pelos golpes militares, que culminaram com o de 1º de abril de 64.

E foi justamente um articulador militar, Gen. Golbery, que autorizou o surgimento do PT, e no mesmo ato, retirou o PTB dos trabalhistas, entregando a sigla a Ivete.

Sendo assim, há uma distância razoável entre Lula e Vargas.
Não só porque, como disse Mino Carta, lula é um fraco, que jamais faria revolução alguma.
Basta ver que Lula tem o apoio popular, e poderia, se quisesse, trair os interesses neoliberais e neocoloniais que são vigentes desde Sarney...
Mas não o faz, porque está comprometido com esses interesses.

Há única semelhança que pode ser apontada se resume a propaganda de governo, mas até nisso, Lula não foi o primeiro.

Carlos Eduardo da Maia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos Eduardo da Maia disse...

Armando, este pensamento franciscano de que é pecado enriquescer fez muito mal ao Brasil. Em qualquer país socialmente justo há riqueza. A questão não é essa, mas a inclusão social dos excluídos. É possível haver maior inclusão social e riqueza. O fundamental numa sociedade que quer socialmente se evoluir é alimentar a pirâmide social no meio.

Anônimo disse...

Só não vê a diferença entre o governo Lula, que não é nada perto do socialismo, e o do FHC quem não quer.
Os mesmos criticos de agora e que acham tudo igual gritaram histéricamente contra a política externa do Lula, quando viram o que significava calaram e não falaram mais.
Fizeram o mesmo com o Fome Zero, quando viram que não conseguiram matar, se calaram e juram que não vão mudar nada.
Enquanto metem a doburna no Chavez, não olham o acordo do México com o EUA e Canadá, até agora só rendeu um muro de exclusão total. E queriam a alca!!!

Só não vê diferença quem não quer, ou quer esconder os crimes de Lesa Patria das "Privatarias".

Claudio Dode

Carlos Eduardo da Maia disse...

Mas que Lula segue a mesma política econômica de FHC é inegável... E é exatamente essa politica que está fazendo a classe c brasileira ser a classe dominante. Qualquer governo - de qualquer partido e linha ideológica - tem que ter esse objetivo no Brasil, incluir cada vez mais os brasileiros na qualidade de vida. E essa inclusão não é ideológica (porque vem para o benefício de todos), ela se processa de acordo com certas linguagens de desenvolvimento e gestão. É só seguir os caminhos que outros países fizeram.

Anônimo disse...

É natural que os Maia, e toda a colonia de PIG-ZH esteja enconformada com esta zarolha imagem da classe c ser a classe dominante. Qualquer miragem que tire da elite branca a dominação dá calafrios nas tietes reacionárias.
"É só seguir os caminhos que outros países fizeram."

Maia e outras sem analisarem
por exemplo a política externa dos dois não dá para dizer qualquer bobagem.

Quando passarem daí dá para falarem alguma coisa...

Claudio Dode
De preferência dos EUA, nada relacionado ao colonialismo;

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